Cidade sem carros, é possível?





Seria possível uma cidade existir, ainda hoje, sem a necessidade de carros?

Poucos conhecem, mas esta cidade existe. São as ilhas de Veneza, também conhecidas como ‘insulas’ onde, na verdade, os carros podem até chegar, mas não passam pela cidade. Ainda que a área legal de Veneza seja composta de outras áreas urbanas no continente, onde o automóvel impera como em outras tantas cidades no mundo, as ilhas de Veneza possuem várias curiosidades e características urbanísticas que são desconhecidas por muitos.

A cidade foi fundada ainda no século V, por habitantes da Região de Veneto que fugiam da invasão dos bárbaros que ocorriam no continente. Os venezianos ocuparam as ilhas que existiam nas áreas de mangue da Laguna, as quais eram formadas naturalmente pelas correntes produzidas por deságues de água doce do continente, bem como as correntes formadas pela variação da maré.

No vídeo mostramos Veneza hoje e, também, áreas de mangue que não são ocupadas. Estima-se que estas áreas de mangue que vemos na imagem tenham aspectos similares ao em que se encontrava Veneza antes de ser ocupada. Estas ilhas vinham pouco a pouco sendo habitadas, concretizando a forma que Veneza possui hoje. Poucos sabem, mas estas ilhas eram ocupadas com intuito de independência, sendo composta de edifícios, uma igreja e um campo. Estes campos, por sua vez, tinham como intuito de coletar água da chuva. Devido a ausência de água potável nas proximidades, as ilhas possuem, pelo menos, um poço. Alguns palácios de proprietários mais ricos, possuíam seus poços privados na área interna do edifício.

Este intuito de independência é uma das tantas evidências que poucos conhecem: apesar dessas ‘insulas’ se posicionarem extremamente próximas uma da outra, não havia pontes. Uma evidência clara disto é observar a arquitetura dos palácios e edifícios: suas paredes estruturais são orientadas para os canais. Isto permanece até hoje evidente, pois o principal acesso era realizado por água, e não a pé.

Isto, na verdade, explica também o porquê que as pontes da cidade possuem as formas mais esquisitas e curiosas. Grande parte das pontes que vemos hoje foram construídas após a fundação e concretização da cidade. Ou seja, na cidade já existia um tecido urbano de ruas que, por terem sido criadas de forma independente, não coincidiam e não se encontram de forma alinhada. Logo, estas pontes, começam a costurar a cidade fazendo possível e acessível estes espaços a pés. A criação destas pontes era mais que uma necessidade de conectar a cidade democraticamente: pois é através delas que se viabiliza a passagem de dutos de eletricidade, água, gás etc.

Esta realidade também nos convida a pensar que enquanto andamos a pé por Veneza, na maioria dos casos, nós estaremos apreciando os fundos das arquiteturas dos palácios. As gôndolas e outros barcos, os quais hoje são uma das grandes atrações turísticas da cidade, eram, na verdade, um dos principais meios de locomoção.

A construção de pontes, inicialmente, era fundamentada com base na demanda de deslocamentos de travessias frequentes, então operadas por gôndolas. Hoje Ainda existem alguns pontos onde é mais rápido e prática pagar para fazer a travessia de gôndola, de que fazer todo um giro pelos labirintos de ruas da cidade. Estes pontos são conhecidos como “traghetos”.

Entre as tantas pontes, em diagonais, curtas, escaladas, recortadas, temos a mais longa de quase 4 quilômetros. É a “Ponte Della Libertá”, construída em 1841 para viabilizar a chegada do trêm na ilha. Ela foi ampliada na década de 30 para viabilizar faixas de rolamentos para o automóvel. Isto viabiliza chegar em Veneza de carro, trem ou ônibus. Esta ponte tem como função conectar o continente com a Piazzale Roma. Porém, a partir deste local para qualquer outro ponto da cidade, você precisará fazer a pé ou de barco.

Taxis, por exemplo, são disponíveis na cidade: um trajeto entre o Aeroporto e a Piazzale Roma custa em torno de 40 euros. Pode soar razoável para a realidade de preços de táxis no Brasil, porém o preço do taxi pode flutuar com base no número de pessoas que embarcam, bem como o destino final. Entretanto, isto não quer dizer que se você poderá fazer tudo de barco. Em consequência das pontes, existem vários canais que podem ficar inacessíveis dependendo do nível do mar: tanto por caso de maré alta, quanto por casos de maré baixa.

Estas particularidades transformam a permeabilidade social das ilhas de Veneza terem um aspecto impar. A maior parte dos deslocamentos nesta cidade são realizados a pé ou em transporte coletivo. Se optar por transporte coletivo, operados pelos ‘Vaporettos’, você poderá reparar que todas as estações deste modal são adaptadas para a variação do nível do mar. Seja maré alta ou baixa, as estações estão sempre acessíveis.

Uma curiosidade são os períodos onde é comum que o nível do mar suba um pouco mais do que o normal. Este fenômeno, para os habitantes de Veneza, é conhecido como Acqua Alta. O resultado é que as vias por onde andamos permanecem por algumas horas cobertas por água. Ocorre com frequência em parte da cidade, mas dependendo do nível da água do mar, pode chegar a cobrir 100% das vias da cidade. Mas a água não é um problema para Veneza, se há acqua alta, as pessoas usam botas, bloqueiam a passagem da água para não invadir as lojas, comércios e negócios. É uma forma clara de resiliência. O ‘mose’ (barreira criada nas bocas de porto para controlar o nível do mar) é, na verdade, com o intuito de evitar o agravamento deste fenômeno, que danifica tanto ambiente natural da Laguna de Veneza, bem como coloca em risco a arquitetura dos prédios históricos da cidade.

Assista o vídeo no link: https://www.youtube.com/watch?v=zw25HEMzpxs
Ou entre no canal para conhecer mais vídeos sobre Veneza e outras cidades: https://www.youtube.com/channel/UCUFjKJG9Z17SoCKv0cxVqcA

 

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