Metrópole vs Subúrbio em 1939




No vídeo anexo, uma série de imagens reais e impactantes do filme The City, produzido em 1939, realçando o caos das grandes metrópoles e valorizando comunidades suburbanas, equipadas e com uma certa ordem, às necessidades da população. Entretanto, hoje fica claro que ambas se correspondem: a grande metrópole havia sido um pequeno povoado e, talvez, o pequeno subúrbio possa vir a se tornar uma metrópole. Ou seja, no fundo, a raiz dos problemas de qualquer cidade é a dispersão e a desordem: é quando, de tão fragmentada, a cidade deixa de ser cidade.

NY Traffic congestion 1939

NY’39 Traffic Congestion

 

NY Traffic City Chaos 1939

NY’39 Street crossing; chaos

 

Neste filme, após imagens de um povoado industrial em condições desumanas, vemos a imponente Nova York naqueles anos. A metropole já era dominada por arranha-céus, possibilitados por Otis, que fez com que a altura deixasse de ser um obstáculo. Contudo, as imagens retratam o caos em que a cidade de Nova York se encontrava naquele momento. A produção do filme The City não podia prever a aceleração do desenvolvimento urbano nas décadas que seguiam. Afinal, em 1900 apenas 17% da população vivia nas cidades. Hoje, mais da metade da população do mundo concentram-se áreas urbanas.

Residencial Jacinta Andrade

PAC Res. Jacinta Andrade

 

Las Vegas Suburb

Las Vegas Suburb

 

O filme retrata a crença de que a solução era criar subúrbios. Por um lado, os exemplos que vemos no filme leva em consideração a escala humana. Porém o resultado disto tudo é comum e pode ser observado em cidades por toda america, inclusive no Brasil. São muitas residências aglomeradas, como na imagem ao lado: uma obra do PAC, com 4.300 unidades, todas Residenciais. Já se parou para pensar onde esses moradores farão suas compras ou trabalharão? É uma bomba relógio. Um caos plantado.

No futuro, atenderemos a essa demanda, construindo e gastando milhões com infra-estruturas que possibilitem a locomoção dessas inúmeras pessoas “isoladas de onde o mundo acontece”. Abaixo, um exemplo da macarronada feita ao leste de Los Angeles (Judge Harry Pregerson East Los Angeles Interchange).

Judge Harry Pregerson East Los Angeles Interchange

East LA. Interchange, US

 

Infelizmente, muitos limitam mudanças que podem ocorrer na cidade ao mandato político ou até mesmo à sua perspectiva de vida, mas a fim de visualizar a amplitude temporal, cito Koen de Paus, comentando que “se você condensar todos os 200 mil anos da existência da humanidade em um vídeo de 1 hora, você teria que assistir 58 minutos para ‘ver’ a construção do primeiro ‘parecer’ de cidade/habitat. Meio minuto depois, você iria ver outra cidade, no Iraq, que surgiria com 50.000 habitantes. 45 segundos mais a frente você veria o Egito de Alexandria disparar de 10 mil para 500 mil habitantes. Nos últimos 2 segundos deste filme de 1 hora você veria a população de Londres disparar feito um foguete para 5 milhões de habitantes. No último segundo, o mundo que vivemos iria seguir.

Após essa viagem no tempo de uma hora, é normal despertar a curiosidade sobre nosso futuro. Jaime Lerner opina em um de seus livros que “a cidade do futuro não vai ter um cenário de ficção científica tipo Flash Gordon, como pensam os mais otimistas, nem uma paisagem desoladora estilo “Blade Runner”, como imaginam os pessimistas. Na verdade, arrisco-me a dizer que a cidade do futuro não será muito diferente da de hoje, pelo menos no aspecto físico, assim como a cidade atual não é muito diferente que a cidade de 200 ou 300 anos atrás. Como diz uma poesia de Raquel Jardim, ‘o futuro está logo ali, basta atravessar a rua. O que pesa na vida da gente é o passado.'”