The Shard

Edifício mais alto da Europa, apenas 48 vagas na garagem

Li há poucos meses uma publicação do El País a respeito do “The Shard“, um arranha-céu projetado por Renzo Piano, próximo ao centro de Londres, como também os comentários de Rodrigo Díaz. A leitura me fez recordar conversas que tive enquanto trabalhava na concepção de um edifício residencial em São Luís. Antes mesmo de consolidar qualquer desenho, o quadro de áreas já previa um espaço significativo para as vagas de estacionamento.

Nessas conversas, questionava-se o desperdício de espaço com estacionamento que se sobressaiam às áreas sociais e de lazer. Era, na verdade, o reflexo da situação em que – São Luís e – várias cidades brasileiras se projetaram ao longo dos anos:

  • a dependência do veículo privado; afinal, transporte público não é opção para os que possuem condição de comprar seu carro ou até mesmo uma moto.
  • Parar o carro na rua nem pensar, é inseguro!
  • Precisamos de áreas de lazer significativas dentro da edificação, afinal, na cidade há poucos parques que, por sua vez, além de escassos também são inseguros.

Enfim, entre diversos aspectos, vejo muitos arquitetos reféns das deficiências nas cidades.

O caso do “The Shard“, o arranha-céu da imagem acima, é referente à tendência pela alta densidade nas cidades, vista hoje como solução por urbanistas. Porém, ao tratar de alta densidade, há uma relação equivocada e direta entre área total edificada e a quantidade de estacionamentos disponíveis. Por um racionamento lógico – para leigos – quanto maior o número de habitantes vivendo ali, maior será o número de vagas que esta demandará do edifício. A malícia equivocada deste racionamento causa efeitos devastadores em nossas cidades, uma vez que estes grandes estacionamentos são como imãs para veículos, tal como identificado por Rodrigo Díaz.

Mas aqui vos entrego a surpresa; o The Shard, que deve ocupar o posto de edifício mais alto da europa, possui 87 salas com 48 vagas de estacionamento. Transcrevo aqui um comentário irônico de Díaz; ”Já imaginaste que altos executivos das empresas serão obrigados a chegar de metrô, a pé ou bicicleta ao trabalho. Que seus ternos Savile Row não irão render tanto. Que haverão pessoas que pagarão milhões de libras por um estabelecimento que não tem um lugar pra parar seu Aston Martin.”

Renzo Piano em entrevista ao ElPais disse que “Não dá pra ser sustentável construindo na periferia”. Você acha que carros elétricos são sustentáveis? Podem poluir menos, mas sustentável mesmo é você usar seus próprios pés. Para o promotor, Irvine Sellar, reduzir o espaço para o automóvel na edificação representa muito mais do que, por exemplo, usar placas fotovoltaicas.

Provavelmente alguns dirão: claro, lá é Londres, outro mundo. A estes, gostaria de lembrar que ao pensar assim, estarão condenando a cidade em que habitam à condição eterna de inferioridade. Afinal, nosso transporte público não é eficiente nem confortável, mal temos parques, normalmente, você só se sente seguro aprisionado em sua casa ou apartamento, com cercas elétricas e arames farpados pelos muros.

Links para referência desta publicação; à matéria publicada no site do El País, no dia 21 de janeiro de 2013; neste link. À materia de Rodrigo Díaz referente ao mesmo assunto, neste link.  Site oficial de Renzo Piano; http://www.rpbw.com/, informações sobre London Bridge Tower (The Shard).

2 thoughts on “Edifício mais alto da Europa, apenas 48 vagas na garagem

Oi Diogo,
Legal o artigo! Pensando em Porto Alegre, um dos efeitos mais nocivos desse desentendimento no uso do transporte, temos 2 coisas: a orbigatoriedade de número mínimo de vagas; a privatização absoluta dos estacionamentos, a impermeabilização execessiva do solo privado TAMBÉM, pois se permite ocupação de 100% da área do terreno p/ garagens. Citada da paisagem urbana…

Oi Andrea,

É verdade. Sobre isto, em São Luís, ao menos é obrigatório que 25% do terreno seja permeável. Entretanto, poucos respeitam: um dos artifícios usados, por exemplo, é o uso de blocos intertravados, argumentando que o material possui uma ‘certa porosidade’.

A realidade que resulta disto é que, até pelo custo, a maioria das áreas térreas acabam totalmente pavimentadas destinadas ao uso de garagens. As garagens, por sua vez, são frias, sem possibilidades de interações sociais e, sem vida, condena a calçada ou rua às margens daquele espaço.

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