Você não está no trânsito, você é o trânsito!

Você não está no trânsito, você é o trânsito!

Pra começo de conversa, antes de ler este texto, entenda um detalhe: você nunca ‘está’ no trânsito, você ‘é’ o trânsito!

É interessante ouvir que São Luís possui 300 mil veículos e, por isso, sofre com congestionamentos. Também joga-se a culpa nas facilidades para comprar um carro, e fala-se das larguras das avenidas. Lamento dizer, mas os problemas não são esses.

Há exatos 297.766 veículos privados na cidade, por isso, arredondam aos 300 mil. (DENATRAN, Agosto de 2012)

Mas aí, você pensa: “Nossa! 300 mil, são muitos carros!”

Seriam! Mas não são 300 mil carros. Neste número estão somados desde reboques à tratores! Ainda não entenderam? Ok. Explico.

O que há nos congestionamentos? Carros. Quantos existem na cidade? 164.755! Hã? A metade? Sim! E sabe o que pesa pra alcançar a cifra de ‘300’? As motos! Elas somam hoje 79.344! Sabiam que quase 70% dos acidentes envolvem motos? Sabe quanto o Brasil gasta com seguro DPVAT p/ acidentes? 2,296 bilhões. Mas isso já é outro assunto. (DENATRAN, Agosto de 2012) (Estatísticas DPVAT, 2011)

Seguimos…

Vi, há pouco, a atual administração da cidade alegar que as facilidades de comprar um carro é uma das causas dos congestionamentos.

“Claro! Quanto mais carro, mais trânsito! Certo?”

Errado!

Acredite, isto não é uma lógica. Na Noruega, a cada 2 habitantes, 1 tem um carro! E a população é de 5 milhões de habitantes, 5 mais que São Luís. Então, pela média, eles possuiriam mais congestionamentos que nós? Não!! (Data.Worldbank.org 2011)

Há 4 anos atrás, São Luís tinha uma frota de 195.176. Destes, apenas 118.774 carros. Ou seja, o aumento de carros na cidade em 4 anos foi de 30%. Nesta mesma data, o número de motos somavam 40.224. Ou seja, a quantidade de Motos dobrou!! E elas poluem 14 vezes mais que um ônibus, e quase o triplo do que um carro. (DENATRAN, Ago. de 2009) (PROCONVE, emissões e poluentes)

“Nossa!! Mas por que a quantidade de motos dobrou?”

O número de usuários que usam o transporte público é exemplar: 672 mil usuários, mais de 60% da população de SLZ. Em Curitiba, que tem toda a fama no mundo, são 45%. Ou seja, somos um exemplo a nível mundial. (IPPUC – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, 2012)

O problema começa aí: infelizmente, ninguém usa o ônibus por opção. Com má qualidade, baixa eficiência, insegurança e, por fim, ao ver que o preço da tarifa usada todos os dias sairá quase o preço de uma moto, ou um carro usado, o usuário migra e deixa o sistema.

“Tá! Então o aumento de 30% não é a causa do congestionamento?”

Não!

A raiz do problema começa pela má distribuição da cidade. O Plano Diretor não possui uma lógica sobre que zonas deveriam ser ou não densas, muito menos os serviços disponíveis para cada espaço.

Veja bem. Se coloco 15 mil pessoas vivendo em um bairro sem padaria, mercado, bancos e principalmente, sem se preocupar com a proximidade do trabalho ou das escolas, eu vou forçar com que essas 15 mil pessoas necessitem de transporte para essas tarefas triviais. Como o transporte público não é uma opção, que outro lhes resta? O veículo particular!

“Viu? Então, o número de veículos importa.”

NÃO!

Podem ser quinhentos ou mil carros: se muitas pessoas precisarem fazer um mesmo deslocamento, todas em carro, elas vão congestionar! Obvio! Isso independente da quantidade de veículos que a cidade tem! A cidade se fragmentou e nos criamos reféns de carros.

“Então o problema é em como a cidade se distribuiu?”

Isso mesmo! Não somente construções privadas, mas também os programas habitacionais pelo qual esses dinossauros se vangloriam – Claro! É lindo dar uma casa aos necessitados. MAS PO***, vai dar a casa ao cidadão pra morar la na P*** QUE O PARIU? Longe do centro? longe de TUDO? Foi assim que esses put*s FU***** com a Cidade! Até a classe alta, há um tempo atrás, acreditou que, morando em um bairro isolado teria melhor qualidade de vida. Engano!

“Então Não tem jeito?”

Sim! Existe jeito.

O transporte público (por completo) deve ser prioridade: eficaz e barato. Em algumas situações, pode até piorar para quem está no carro, mas é a solução mais democrática. Assim, possibilitamos que as pessoas tenham opções. O mesmo deve ser feito com a bicicleta e calçamentos para os pedestres.

Além disso, zonas comerciais deveriam ser obrigatórias a partir de uma certa quantidade de moradores, incentivado o uso misto. É construir apartamentos, e ter como servir aos futuros moradores com serviços básicos.

“O VLT então é a solução?”

NÃO!

O VLT faz o mesmo serviço que um BRT(Ônibus). Eu, particularmente, acho o Trem muito charmoso! (Até eu, técnico, sou seduzido por ele!) Mas infelizmente, além de demorado, ele é mais caro pra instalar e pra manter. Para termos uma noção, ele é quase o dobro do preço do BRT. Falo da diferença de 30 milhões. (Estudo de Peter Alouche, Jan. de 2012)

A principal vantagem do VLT é que ele usa energia limpa. Ou seja, sem combustão. Mas acreditem, o VLT de São Luís funcionará a Diesel! Ou seja, nem isso ele é capaz. Já o trilho, uma vez colocado, traz atrativos econômicos. Isto é cientificamente comprovado, assim, pode ser utilizado como estratégia. Mas não foi! A linha poderia ter agregar mais valor ao Centro, mas não o faz como deveria.

Seja trem ou ônibus, o correto seria fazer com que o sistema pudesse funcionar integrado, como um todo, e não adicionar uma ou sete linhas novas.

“Mas o Bilhete Único vai ser implantado”

O bilhete único já podia ter sido implantado há anos. Qualquer um já pode cruzar a cidade, pagando apenas uma passagem. Só que para isso, tem que fazer o zig-zag – torturante – entre os terminais.

A intenção do Bilhete Único é fazer com que o passageiro faça seu traçado e as máquinas controlem a viagem que ele está fazendo. Como as máquinas leitoras de cartões já estão aí, já é possível fazer com que ele funcione.

O problema é que o desenho deste emaranhado de linhas que existe hoje, foi criado com base nos terminais. Ou seja, o traçado dos ônibus buscam a eficiência entre estes pontos, enquanto deveria corresponder à pesquisa de origem/destino do passageiro.

“As empresas não vão perder dinheiro?”

NÃO!

Já é possível fazer viagens longas, pagando uma só passagem, a diferença é que vamos facilitar ao usuário. Ou seja, isso pode incentivar o uso deste meio.

Por outro lado, o quadro de linhas existente possui uma certa ordem para os terminais, mas não para a cidade. Alterando esse quadro de linhas, acredito que as empresas reduziriam em até 41% seus custos operacionais, além de melhorar a frequência do serviço.

“Mas e aí? E viadutos, vias expressas… não resolvem?”

Resolvem quando tratamos da escala territorial, ou seja, quando se trata de conectar cidades satélites, estradas, ou quaisquer campos ou zonas industriais.

Quando aplicado em zonas internas à cidade, é como mutilar os espaços, tornando-os sujos, desagradáveis e por sua vez, inseguros. Além disso, podem até piorar o congestionamento. Na melhor das hipóteses, funcionar como paliativo local, pois você apenas transfere um problema de um ponto ao outro, e por pouco tempo!

“Transferem um problema? Não entendi”

Se você tem uma demanda de veículos congestionados em algum local e aplicar um viaduto, conseguirá fazer com que eles não parem, porém eles chegarão no próximo ponto mais rápido. Consequentemente, este próximo ponto será o novo congestionado.

Nas auto-estradas holandesas a velocidade é controlada por letreiros digitais. Ou seja, se a demanda engrossar, eles reduzem a velocidade no inicio da rodovia, obrigando ‘essa nova demanda’ demorar mais p/ chegar ao ponto crítico. Isso também melhora a qualidade do ar, pois os carros parados em congestionamentos poluem muito mais. (Bart Degraeuwe, Vision on Tecnology Institute, Mol, Belgica (VITO), Instituto de investigación tecnológica VITO en BE)

Talvez, se simplesmente obedecêssemos as leis locais, os congestionamentos seriam menores. Afinal, quantas vias em São Luís permitem algo acima de 60km/h? Quantas vezes você se preocupa em manter essa velocidade?

Então, antes de se posicionar sobre as razões dos congestionamentos e os problemas do transporte público, estude, leia e pesquise.

Lembre-se, se você é o trânsito, não culpe os números, nem os veículos. Existe sim, solução para estes problemas! É hora de tomar as rédeas e mandar ver na hora do voto.

 

Texto publicado antes das eleições de 2012, título original “Desabafo. Pense antes de votar.” por Diogo Pires ferreira

8 thoughts on “Você não está no trânsito, você é o trânsito!

Diogo, sinto muito, mas só o que este povo quer é poder. Qualquer um que ganhe vai apenas lotar as Secretarias da Prefeitura de apadrinhados políticos. E sabemos que precisamos de técnicos para desenvolver políticas públicas que dêem qualidade ao ambiente urbano de São Luís. Não consigo ver uma luz no fim do túnel. Nesta campanha não se discute uma cidade melhor. Na verdade, o que se propõe é o poder trocar de mãos. A afirmação de um novo grupo político em oposição à família Sarney será desculpa para toda sorte de ações visando 2014. Não sou a favor da maneira como os Sarneys manipulam a todos e não confio que Edivaldo resolva os principais problemas da nossa cidade, apoiado por políticos que já estão há mais de 20 anos na prefeitura e sempre estão do lado de quem possa lhes oferecer um quinhão. Jackson não teve pulso para segurá-los e foi conivente. Morreu só. Confio que hoje um candidato independente possa fazer a diferença. Penso que agora Castelo poderá fazer alguma coisa, sem tantos intere$$ados em sua reeleição. Finalmente, se não me identifico é porque nesta terra ainda existe muita perseguição às pessoas que pensam alto.

Caro Tertuliano, não sinta por mim, mas por todos nós.

O que escrevi não tem a intenção de defender ou acusar nenhum político. Apenas comento como a cidade tem sido “mal”tratada, mais especificamente no que diz respeito a área em que atuo (urbanismo).

Reflito sobre o que tem sido dito nas campanhas. Há um ditado que diz ’em time que está ganhando, não se mexe.’ E aí, o nosso time está ganhando?

Se o critério correto fosse optar por um candidato independente, elegeríamos Marcos Silva, do PSTU, o que ao meu ver, não é o melhor critério. Tampouco prever e fantasiar o futuro: assim, pra que votar? Um médium decidiria por nós. 

Deveríamos votar em projetos e propostas, em competência. A realidade está aí, para os cegos que quiserem ver.

E acredite: sempre há luz no fim do túnel – se não houvesse, eu nem mesmo escreveria este texto. Só que chegar ao final é pra poucos, é preciso ter coragem para tanto. Somos movidos por desafios. Mas eis o espetáculo da democracia, não vou discutir votos. Como eu disse no título. Pense bem antes de votar.

Obrigado pelo seu comentário!
Diogo

Muito esclarecedor o post. Mostra que o senso comum domina todos os escalões da prefeitura nesse quesito. Acho muito interessante enxergar soluções para o trânsito que para um leigo não teriam nenhuma relação com o trânsito, como uma padaria e um mercado em cada quarteirão. Independente de quem ganhar – e espero que não seja o Castelo – a Prefeitura poderia chamar você para ajudar nesse processo, nem que suas proposições fossem realizadas em paralelas às grandes obras de baixa validade que eles adoram fazer, para levar nosso dinheiro. Vamos em frente, se não tiver engarrafado. Abraço.

Caro Igor,

Batalha árdua. : ) Já apresentei estes projetos em diversas cidades.

Infelizmente, aqui em São Luís, entre palestras e conferencias, estive frente a frente com secretários e técnicos locais que nada fazem a respeito. Por isso escrevi este texto como um pequeno desabafo.

Agradeço a força, sigo a luta ciente de que não estou só.
Abraço

Muito pertinente. Somado a isso tudo ainda tem a educação do nosso povo, ou melhor a falta de educação e falta de consicência que agravam ainda mais os problemas de circulação da cidade.

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